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2003/12/01
Atenção: a violência doméstica é passível de causar surdez crónica nos habitantes vizinhos...

«... o principal equívoco e entrave da emancipação feminina: a altiva presunção de que, com o tal e especialíssimo sexto sentido feito de intuição e inteligência, charme e ternura, hão-de mudar os homens.»
extraído da Crónica Feminina de Inês Pedrosa, no suplemento Única, do Jornal Expresso de 29/11/2003

Espanta-me - desculpem - mas espanta-me ler uma posição tão iluminada. É que são raras (parabéns Inês, por este e por todo o seu trabalho que tem sido publicado nas páginas deste jornal, btw). Alguém que espalhe isto aos quatro ventos, façam panfletos e distribuam, mesmo nas caixas de correio que indicam claramente que 'Publicidade não desejada, aqui não!'. Há demasiada gente a sofrer e a precisar de ser salva.
Bolas, será muito difícil compreender?

A partir de certo ponto, é inútil tentar comover os carrascos. Sejam eles pais, maridos agressores, colegas que violentam psicologicamente os seus pares todos os dias. É inútil. O truque da vítima deixa de funcionar.
O pior é quando o truque da vítima já se instalou como a única alternativa e não deixa ver que há outros caminhos para sair daquele buraco.

Infelizmente, as famílias que deveriam ser porto de abrigo são muitas vezes a principal fonte de ansiedade e medo que alguém tem. Às vezes é nas coisas mais familiares que se esconde o mal.


 (http://www.i-mockery.com/goodpics/sesamestreet-violence-new.jpg)

A ternura não é, logicamente, a melhor arma contra a violência. Contra os perversos, temos que ser perversos. E inteligentes.

A inteligência é o melhor truque para superarmos os nossos agressores...e os nossos medos...

Força.




Posted at 10:07 by Ana


2003/12/02
A verdade não está lá fora

Infelizmente a vida humana tem perdido valor nos últimos tempos. É a única coisa cujo preço não subiu, ultimamente.

Há uns tempos li num site inspirador (www.heartless-bitches.com) que uma coisa que devemos fazer para nos impôrmos respeito por nós próprias é ir a uma papelaria ou quiosque, comprar umas quantas revistas, chegar a casa e rasgar-lhes todas as páginas que nos ofendem claramente. Imaginem: anúncio com rapariga semi-anorética, esparramada numa cama, com ar ausente (leia-se 'pedrada'), beiças bem maquilhadas, cútis alva e de textura perfeitíssima (provavelmente retocada num programa de edição de imagem). No canto inferior direito da página, um frasco de perfume bem pequeno - o anúncio é a perfume, apesar de não parecer. É que não mostra flores, pratos condimentados que exalam odores misteriosos, ou locais salpicados de cheiros apelativos, como lojas de especiarias ou ervanárias. Tudo se vende hoje em dia à custa do corpo humano. Perfumes, roupas, até já vi um anúncio a porcelanas em que o principal do cartaz era uma rapariga bem maquilhada e vestida, por amor de Deus...
No tal site ainda sugerem que se volte à papelaria e se devolvam as páginas rasgadas: "desculpe lá mas não comprei esta porcaria, comprei artigos com conteúdo que quero ler".

Pois é. Todos esses anúncios que gritam "você só é boa/bom se me comprar, se me tiver e exibir, se me consumir" ofendem a nossa inteligência.
As coisas são coisas. São objectos, destinados apenas ao uso material, prático. Não são alimento para a alma.
Se você comprar aquele relógio carismático, não se vai tornar carismático da noite para o dia. As pessoas à sua volta não vão ganhar um novo respeito por si porque você o ostenta no pulso. A única coisa que pode suscitar é inveja.

Desculpe-me por lhe dar esta triste notícia, mas não há nada que faça os seus semelhantes ganharem respeito, afecto, ou outro qualquer sentimento de ligação por si, a não ser as suas atitudes no dia a dia, o seu respeito pelos sentimentos dos outros, a sua simpatia, honestidade, e a sua compaixão.
Se você hoje ganhar 1 milhão de contos, amanhã a única diferença é que vai ter um milhão de contos a mais no banco, mas vai continuar a mesma pessoa. Por dentro, nada vai mudar.

Não há nada que possa adquirir que vá aproximar as pessoas de si.

Desculpe-me por lhe dizer isto, mas a verdade não está lá fora.

Aprenda a diferença:


Força.

Posted at 14:03 by Ana


2003/12/03
Os senhores do desencanto.

Tenho uma amiga que diz com muito gosto, a quem a quiser ouvir, que odeia o Natal. Não gosta de passear nos centros comerciais e ouvir as músiquinhas de Natal, dá-lhe ganas de destruir tudo a pontapé. Odeia a decoração natalícia.

(É como aquele ditoso comentador político, o cujo-nome-não-vou-dizer-mas-que-se-pronuncia- frequentemente-num-programa-radiofónico-ao-fim-de-semana-e-que-teve-a-brilhante-ideia-de-apregoar-por-aí-que-detesta-o-Principezinho...)

A minha amiga tem um belo discurso preparado sobre a superficialidade de tudo o que se faz nesta época, porque só se faz nesta época e não nas outras, e como é cínico o comportamento das pessoas. Até saímos de ao pé dela convencidos que realmente, o Natal já deu o que tinha a dar...

Poix é...
Mas se formos a usar a teoria para justificar tudo, eu garanto que sou capaz de dar já uma descrição fidelíssima de quando fui raptada por extraterrestres que me sujeitaram aos seus 'medical tests' (© Dana Scully). Ou consigo descrever em pormenor a minha vida passada como dama da corte do faraó Tutankamon. E, se necessário, consigo convencer alguém de que não o amo, apesar de estar a rebentar de lágrimas por dentro.
Até me consigo convencer a mim, se for preciso.




Estou cada vez mais convencida de que ninguém manda no seu coração, que os sentimentos que surgem fazem-no por razões misteriosas. Talvez algum Freud gostasse de dissecar a nossa infância à procura do momento em que determinada pessoa nos tratou mal, abrindo-nos no coração a brecha que ficou anos à espera de ser preenchida, e que nós tentamos tapar atirando repetidamente o cimento à parede. E depois dizemos espantados: não cola!
Mesmo que esse Freud o conseguisse, (o que eu duvido porque somos maravilhosamente complexos demais), mesmo que identificasse o segundo exacto em que algo na nossa vida nos criou determinada necessidade... e depois?
Conscientes dela, não iríamos mais precisar de a preencher?
Ou íríamos passar a detestar-nos secretamente por sabermos que precisamos dos outros?
Tornarnos-íamos vítimas do nosso passado?Buahhh, desde que me fizeram aquilo nunca mais me recompus...

A resposta é: não interessa. Não interessa o que nos fez mal, já não o podemos mudar. Não interessa que algo lhe diga que não deve amar, que não deve gostar, que não deve rir, se o seu coração quiser vai fazê-lo à mesma.
Não interessam todos os princípios que defendemos e que na verdade só servem para darmos uma imagem dura, fria e racional de quem somos aos outros (vulgo "estar a armar"), mete-me nojo cada vez que alguém afirma categoricamente "ah isto comigo eu sou assim e prontos". ("Prontos!").
Esses muros não são nada. Aliás, são... são ridículos.

Interessa defender apenas aquilo que sentimos que é profundamente importante. Aquilo que salvaríamos se de noite nos acordassem a gritar "Incêndio!". As pessoas. O amor.

Que eu saiba, há quem viva sem um braço. Sem os dois. Sem pernas, também. Sem partes do cérebro, sem um rim, sem parte do estômago, sem útero, sem testículos, sem pénis, sem clitóris, sem língua, sem dentes, sem cabelo, sem orelhas, sem olhos.
Informem-se se souberem de alguém que viva sem coração.

Força.



Nota da redacção: Apesar do que foi escrito, eu gosto muito da minha amiga. Sei que gosto, porque senão não lhe aturava atitudes destas. Mas ela é muito especial para mim e por isso merece que eu lhe ature estas merdas, e eu faço-o com muito gosto. Mas é só para ela.

Posted at 00:52 by Ana


2003/12/04
Esta música não me sai da cabeça...

eu tenho, eu tenhooooooo que cantar isto, eu tenhoooooooooooooooooooooooo...


LA LA LA LA LA HU!



(ahhhhhhhhh soube tão bem...)

Posted at 08:35 by Ana


2003/12/05
Mais vale um cérebro na mão do que dois no consultório...

     Hoje, às 20:10, já de noite, ia eu pacificamente a conduzir (mais precisamente a entrar numa rotunda) e a ouvir a Rádio Clube Português quando o locutor, falando por cima do início da canção, disse: «E se virem qualquer coisa esquisita, já sabem, liguem-me

Segui o meu caminho, aproveitando para de vez em quando prescrutar o céu em busca de alguma nave espacial a sugar vacas adormecidas da lezíria ribatejana, para ver se tinha uma desculpa para ligar (não tive muita sorte) e absorta nas minhas reflexões. Passado um bocado ainda vi um OVNI, que tinha dois faróis e se dirigia rapidamente em direcção ao meu carro, mas o respectivo extraterrestre que estava ao comando resolveu no último momento desviar-se para a esquerda fazendo uma razia a mim e ao carro que estava a ultrapassar.
E tanto extremista palestinano cheio de C4 que é desperdiçado em inocentes...

Continuando para campos mais alegres, hoje dei por mim a pensar que apesar de há algum tempo fazer psicoterapia (SIM, eu FAÇO PSICOTERAPIA, que atire a primeira pedra aquele de vós que nunca 'psicoterapou', a ver se eu me ralo), estava eu a dizer, apesar de há algum tempo fazer psicoterapia, acho que ela não serve para nada. Mentira, a princípio servia, servia para me sentir apoiada e compreendida por outra pessoa, o que, diga-se de passagem, é uma coisa em extinção nos dias que correm e bem valia os 60 euros da consulta. Servia também para sentir que tinha alguém ao meu lado contra o resto do mundo.

Bem, passada a fase de eu-contra-o-resto-do-mundo (agora estou na fase eu-na-minha-e-os-outros-preocupados-com-a-sua-vidinha, que rima e é verdade, não apenas mas também por isso), acho que já não tenho grande necessidade da psicoterapia. Mas calma aí antes de desmarcarem as vossas consultas nos psiquiatras. Não é porque aquilo não sirva para nada. E eu estou perfeitamente lúcida do facto de que continuo a ser louca.
É que a culpa é toda minha!!!!
Acredito mais facilmente no que descubro sozinha com leituras, conversas ou quando (raramente) me disponho a ter juízo e a reflectir a sério, do que numa profissional qualificada, que respeito imenso e admiro pela atitude serena e aberta que tem, em quem confio, etc. Percebem? Faz imenso sentido. Quando se é louca como eu, claro, esquecia-me de acrescentar este pormenor.
Aliás, a minha descoberta miraculosa de hoje é mesmo esta.

Acreditamos mais facilmente no que descobrimos do que naquilo que nos dizem.

Já viram? Tanta treta para chegar a um lugar-comum que podia ter lido na Maria. O que prova exactamente o meu ponto de vista. E, infelizmente, dá razão áqueles professores universitários que mandam os alunos ir para casa fazer a demonstração matemática e geométrica com o uso de integrais que 2=2. Esperemos que eles não leiam isto, hmm?

Força.

 

Posted at 11:33 by Ana


2003/12/06
If!...



If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you;
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
Or, being lied about, don't deal in lies,
Or, being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise;

If you can dream - and not make dreams your master;
If you can think - and not make thoughts your aim;
If you can meet with triumph and disaster
And treat those two imposters just the same;
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to broken,
And stoop and build 'em up with wornout tools;

If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breath a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: "Hold on";

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings - nor lose the common touch;
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds' worth of distance run -
Yours is the Earth and everything that's in it,
And - which is more - you'll be a Man my son!

Rudyard Kipling
(o senhor do Livro da Selva)

E a flor é um lótus.

Poemas destes são a prova de que Jung tinha razão, existe uma coisa chamada Inconsciente Colectivo, e estamos todos ligados a ela... pelo coração.

;)

Posted at 08:18 by Ana


A globalização ao nível dos gambuzinos

     Há uns dias adquiri numa grande superfície um peixe para o meu aquário, que já tem outro ciclídeo e 3 mollies. Um ciclídeo sul-americano, um 'nigrofasciatus' que custou 1500 paus, ou 7,5 €, bem mais do que os normais peixes de água quente. Aliás, este peixe come normais peixes de água quente ao pequeno almoço, como eu vim a descobrir mais tarde...
Cheguei a casa e pu-lo no aquário, e mantive-me por perto para o caso de ele não se 'integrar' bem na comunidade. Ele tava-se a armar em kosovar (daqueles que apesar de estar em país alheio não tem problema nenhum em mandar olhares e piadas esfomeadas às raparigas portuguesas que vão entretidas na sua vida, eu se fosse a eles e estivesse por aí ilegal o que queria era dar o menos possível nas vistas), com a mania que era esperto, e começou imediatamente a apanhar do ciclídeo amarelo, que já lá estava primeiro.
Cheia de pena do peixe, resolvi prender o agressor na maternidade dos peixinhos para dar tempo ao novato para estabelecer o seu território (não me perguntem é como é que eles fazem isso, calculo que não é urinando nas esquinas do aquário...).
No dia seguinte vim ver como estava o recém chegado. Estava óptimo. Os outros habitantes do aquário, os mollies, é que tinham apanhado uma valente tareia durante a noite, tinham as barbatanas em farripas. Ah então coitadinho, não é? Ah então somos mesmo kosovares marginais?
Pois, resolvi passá-lo para um aquário separado e soltei o amarelito.

Entretanto fui pesquisar na net, para ver se era costume esta espécie ser tão agressiva. NÃO, que ideia. São só hiper-territoriais, hiper-agressivos, e crescem SÓ até 15 cm. Boa. Então este era apenas um enfant terrible. Se tivesse comprado um adulto calculo que de manhã até os gatos tinham apanhado.

Agora, pergunto-me eu, que legitimidade têm os donos das lojas para vender estes peixes sem avisar os compradores? Ninguém me fez uma única pergunta quando o comprei, ninguém me avisou que era uma espécie 'especial'. É como irmos comprar um microondas e não nos avisarem de que ele tem a característica de nos explodir com a cozinha na primeira oportunidade. Ou uma máquina de lavar que faça a roupa às tirinhas. «Ah, é característica da espécie». É bonito, não é? Gostavam, não gostavam?
Tive ganas de ir devolver o peixe à loja, mas até o acho simpático (tem realmente um grande sentido de humor), por isso agora tem honras de aquário separado (teve que ser de qualquer maneira porque cresce até 15 cm, não é...!) e se calhar até lhe vou arranjar uma fêmea para ele não se sentir sozinho.

Isto faz-me lembrar aquelas pessoas que compram dálmatazinhos, dobermanzinhos, rotweillerzinhos e pitbullzinhos para os filhinhos no Natal, sem terem em mente que um cão é uma responsabilidade que pode ir até 15 anos, que precisa de educação e companhia senão um dia pode ter um vipe e ferrar os dentinhos num bracinho tenrinho. Não há nada nem ninguém que controle isto.
Sabiam que se comprarem um animal num centro comercial, onde eles podem ir até 200 contos, nunca mais ninguém vos pergunta nada? Pois, os 200 contos já lá estão, o que é que eles hão-de querer mais?
Mas que se forem buscar um rafeiro de graça à União Zoófila, eles telefonam-vos periodicamente para confirmar que o têm, e chegam a ligar para vos lembrar das vacinas que ele tem que levar? Ah pois!

Sabiam que há imensos rios em Portugal onde há tartarugas (cágados) domésticas, que cresceram demais e que os donos resolveram soltar no meio ambiente? E que estas dão cabo dos peixes e anfíbios de Portugal? Sabiam que desde que soltaram lagostins americanos em alguns rios, há imensas plantações de arroz onde eles destroem tudo, sapos e rãs, peixitos e plantas? Ah os sapos e as rãs não vos fazem falta? Quem come o excesso de melgas e mosquitos no Verão, são os gambuzinos? Não me parece.

A globalização também está a chegar ao nível ecológico, como podem ver.
Compramos coisas lindas e fofinhas com 1 cm ou 2 e passado uns tempos descobrimos que crescem até 2 metros e se alimentam de carne humana, e a piada é descobri-lo a meio da noite quando acordamos com o mau hálito do dito animal, que rastejou até à nossa cama e mostra a dentuça num sorriso de reconhecimento do dono (talvez..). E depois vamos soltá-las no esgoto, na esperança que o Mulder estabeleça um contacto de 3º grau com elas? Ou assumimos a responsabilidade pelo bem estar do bicho? E dinheiro para isso? E condições para isso?

Eu, pelo que me diz respeito, nunca mais compro nada para o aquário sem ter a certeza que não se vai transformar no Moby Dick durante a noite.

Posted at 09:30 by Ana


Eu sei


 Se eu voar sem saber onde vou
Se eu andar sem conhecer quem sou

Se eu falar e a voz soar com amanhã
Eu sei...

Se eu beber dessa luz que apaga a noite em mim
E se um dia eu disser que já não quero estar aqui
Só Deus sabe o que virá
Só Deus sabe o que será

Não há outro que conhece tudo o que acontece em mim...


(Sara Tavares, Eu Sei)


Posted at 22:53 by Ana


2003/12/08
Os senhores do desencanto II

     «Tudo é ficção e, portanto, facilmente desmontável e reconstituível. É o que faz o homem de cultura. Desmonta e volta a montar, divertido com a sua habilidade. Não passa de um jogo e, como tal, para além dele, não há mais nada.
Separada do sentimento espiritual, a prática da inteligência facilmente se converte em exercício do vazio e da crueldade. Graças à minha sabedoria, coloco-me num pedestal, exercendo a superioridade do desencanto. Conheço as regras e sei que são filhas da mente e do acaso. Quando muito, posso divertir-me como um gato se diverte com um rato. Deixo para os outros, para a multidão dos cegos, dos ignorantes, desses outros a que Sartre chamava "o inferno", as crenças, as superstições, as ilusões e os sentimentalismos.
Em toda esta cegueira, os cantores do desencanto nunca são sequer roçados ao de leve por uma dúvida. Vivem mergulhados num tédio claustrofóbico e estão convencidos de que é a essência da vida. O seu tédio gera o sarcasmo, o seu pensamento gera o cinsmo. usam-nos constantemente para arrasar, humilhar, ridicularizar tudo o que escapa à sua visão do mundo. Sãoos assassinos do espanto, da gratidão, da alegria.»

Susanna Tamaro, O Fogo e o Vento

Vistas as coisas deste ponto de vista, de que lado prefere estar?



P.S.: Obrigado Susanna!!!!

Posted at 02:37 by Ana


O Blog + famoso de Portugal

     Estou sinceramente preocupada com a imagem dos Portugueses lá fora. Não bastava já:
  • aquela história dos sub-21;
  • o facto de sermos mão-de-obra a ser explorada por vários 'irmãos' da UE;
  • a lambe-butice de quem nos representa junto a quem representa esses mesmos 'irmãos';
  • o facto de sermos conhecidos por termos o novo red-light district da Europa;

, quando descobri, AINDA POR CIMA NUM BLOG BRASILEIRO, que o blog mais famoso de Portugal dá pelo nome de O Meu Pipi (não vale a pena linkar pk vcs de certeza que dão com ele facilmente). Estive a lê-lo.
     Aquilo tem realmente piada, se não se for uma feminista susceptível e se se tiver um bocado de conhecimento de calão português, claro.
Tem piada à primeira ou à segunda vez. Agora saber, ainda por cima por fonte estrangeira, que aquilo tem 5000 e tal visitas por dia, e que é a imagem de marca de Portugal no que diz respeito a blogs...
     Pensem lá nisto a sério. Então o resto do portuguese-speaking world acha que este blog nos retrata? Ah, ok, então somos constituídos por um bando de machos que caçam activa e obcecadamente fêmeas (perdão, apenas a parte genital das fêmeas, o resto é decoração) durante 24 horas por dia, e por fêmeas que não têm outra utilidade senão servir de pasto para os ditos machos, e para oportunamente gerar mais machos.
     Eu percebo que tem piada, que está bastante bem escrito, que é uma sátira a muito gandulo que anda por aí a ostentar orgulhosamente o pêlo do peito e o cordão de ouro por entre a abertura da camisa (a evoluir para unhaca do mindinho e cachucho no anelar daqui a uns anos, vão ver, ou eu não soubesse o país em que vivo). E que só não percebe isso quem é feminista radical, daquelas que têm espetado na testa 'eu-tenho-uma-grande-dor-de-corno-contra-os-homens'.
     Mas não tem piada todos os dias. Suspeito que para muita gente aquilo não está a ser lido como a sátira que é, mas sim como um relato fiel do que deve ser a vida do macho ideal português. Muita gente que se identifica com o modelo de vida que lá está, e que todos os dias corre avidamente a ler por onde andou o pipi do autor (e a babar-se e mais não sei quê com isso, provavelmente, se o seu pipi não teve a mesma sorte).

E daí, o blog mais famoso e mais visitado de Portugal torna-se aquilo.
Cheira-me que vamos voltar a aparecer na Times muito brevemente.
Razão tem o meu paizinho, que diz que o dia da Restauração foi uma tragédia e que éramos felizes era se fôssemos espanhóis.

Mai nada.


Posted at 10:39 by Ana


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Olá, eu sou a Ana e vivo em Portugal.
Imanência: (Filos):o contrário de Transcendência

Às vezes em sonho triste
Nos meus desejos existe
Longinquamente um país
Onde ser feliz consiste
Apenas em ser feliz
.

F. Pessoa

   
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